De todos os documentos que um levantamento produz, o memorial descritivo é o único que o cartório lê literalmente, palavra por palavra. A planta ilustra. O memorial é o texto que vale.
O memorial descritivo é o documento técnico que descreve um imóvel em palavras: onde começa, por onde segue cada divisa, com quem confronta de cada lado e qual a área que esse contorno fecha. Ele traduz em texto o que a planta mostra em desenho, e é essa versão escrita que entra na matrícula.
Essa diferença de papel explica por que ele é rejeitado com tanta frequência. Uma planta com um traço impreciso ainda é compreensível. Um memorial com um confrontante errado é um documento que descreve outro imóvel.
A anatomia do documento
Um memorial bem feito tem sempre as mesmas seis partes, na mesma ordem. Vale conhecê-las, porque cada uma falha de um jeito diferente — e quem recebe o documento quase nunca sabe o que conferir.
01Identificação do imóvel e do proprietário
Abre o documento: denominação do imóvel, município, comarca, número da matrícula ou transcrição, e o nome de quem consta como proprietário no registro.
O que quebra: proprietário divergente do que está na matrícula. Acontece muito em inventário não concluído ou venda não averbada — e o cartório devolve antes de ler o resto.
02Ponto de partida
Todo perímetro precisa começar em um ponto identificável e reencontrável em campo — um marco implantado, um vértice de divisa, um ponto amarrado a coordenadas. É a âncora da descrição inteira.
O que quebra: partida em referência instável, do tipo “cerca existente” ou “árvore”. A cerca é trocada de lugar, a árvore cai, e o documento perde o início.
03Descrição do perímetro, segmento a segmento
É o corpo do memorial. Cada trecho de divisa vira uma frase com direção e distância, encadeada à seguinte, até voltar ao ponto de partida. O texto literalmente dá a volta no terreno.
O que quebra: perímetro que não fecha. Se a soma dos segmentos não retorna à origem dentro da tolerância, o imóvel descrito não existe geometricamente.
04Confrontantes
A cada segmento corresponde quem está do outro lado daquela divisa: o vizinho, a via pública, o córrego, a área remanescente. Não é formalidade — é o que permite ao registrador cruzar a sua descrição com a do imóvel ao lado.
O que quebra: confrontante desatualizado. O vizinho vendeu, desmembrou ou faleceu, e o memorial cita o nome antigo. Erro campeão de devolução.
05Área e perímetro
O fechamento numérico: a área total resultante do contorno descrito e o perímetro somado, com a unidade declarada de forma explícita.
O que quebra: área que não confere com a da matrícula. Isso não é necessariamente um erro do memorial — na maioria das vezes significa que o imóvel precisa de retificação de área antes de qualquer outra coisa.
06Responsável técnico e ART
Fecha o documento: nome, registro profissional e assinatura de quem executou, acompanhados da Anotação de Responsabilidade Técnica correspondente ao serviço.
O que quebra: ART ausente, vencida ou emitida para outro serviço. Sem ela o memorial é um texto sem autor técnico, e nenhum cartório registra.
Como um segmento se parece
• Inicia-se a descrição no marco M-01, cravado na divisa com a via pública.
• Do marco M-01 segue confrontando com a Rua Projetada A até o marco M-02.
• Do marco M-02 deflete à direita, confrontando com o imóvel de matrícula vizinha, até o marco M-03.
• (…) até retornar ao marco M-01, encerrando o perímetro.
Cada uma dessas frases, no documento real, carrega a direção e a distância do trecho. O encadeamento é o que importa: o leitor precisa conseguir percorrer o terreno inteiro apenas lendo, sem olhar a planta uma única vez.
Memorial, planta e matrícula não são a mesma coisa
Essa confusão custa tempo em cartório, então vale separar os três de uma vez.
| Documento | O que é | Quem produz |
|---|---|---|
| Planta | a representação gráfica do imóvel, em escala | o profissional do levantamento |
| Memorial descritivo | a descrição do mesmo imóvel em texto, com divisas e confrontantes | o profissional do levantamento |
| Matrícula | o registro oficial do imóvel, onde a descrição passa a valer | o Cartório de Registro de Imóveis |
A ordem é essa: o levantamento gera a planta e o memorial; o cartório analisa os dois e, aceitando, leva a descrição para a matrícula. Planta e memorial andam sempre juntos — um levantamento planimétrico entrega os dois, mais a ART.
Por que o texto precisa ser tão engessado
Quem lê um memorial pela primeira vez costuma achar o estilo exagerado: frases repetitivas, voz sempre na mesma fórmula, nenhuma variação de vocabulário. Não é vício de redação.
O memorial é lido por pessoas diferentes, em épocas diferentes, para decidir coisas que valem dinheiro — um registrador hoje, um advogado numa disputa de divisa daqui a dez anos, um perito num inventário. A fórmula existe para que nenhuma dessas leituras produza interpretações diferentes. Ambiguidade, num documento desses, é defeito grave.
É também por isso que memorial não se copia de modelo pronto. A estrutura se repete, mas os dados são daquele imóvel e de nenhum outro.
Onde a exigência está escrita
Lei 6.015/1973 — Lei de Registros Públicos. É ela que condiciona o registro à descrição do imóvel com suas características e confrontações. O memorial existe para atender a esse requisito.
Lei 10.267/2001 — tornou obrigatório o georreferenciamento dos imóveis rurais nas operações que alteram a matrícula. Para esses casos, o memorial segue a norma técnica do INCRA e passa a exigir coordenadas dos vértices.
Lei 6.496/1977 — instituiu a ART. É o que liga o documento a um responsável técnico identificável.
ABNT NBR 13133 — norma de execução de levantamento topográfico, referência para os procedimentos de campo que alimentam o memorial.
Em imóvel rural a exigência é mais estrita: o memorial precisa trazer as coordenadas dos vértices dentro do padrão do INCRA, e a certificação é parte do processo. Esse caminho está detalhado em georreferenciamento de imóveis rurais.
Quando você vai precisar de um
O memorial não é um serviço que se contrata sozinho — ele vem junto do levantamento. Mas é ele que o cartório vai pedir, e por isso vale saber em que situações ele aparece.
| Situação | O que o memorial precisa ter |
|---|---|
| Retificar área que não confere com a matrícula | perímetro medido em campo e anuência dos confrontantes |
| Desmembrar ou unificar imóveis | um memorial para cada parcela resultante, mais o da área remanescente |
| Georreferenciar imóvel rural | coordenadas dos vértices no padrão INCRA |
| Usucapião, judicial ou extrajudicial | descrição da área possuída e dos confrontantes atuais |
| Aprovar loteamento ou desdobro | memorial da gleba e de cada lote projetado |
Em todos esses casos, o documento rejeitado volta para o início da fila do cartório. É por isso que vale conferir as seis partes antes de protocolar — e, na dúvida sobre qual levantamento a sua situação exige, a lista de serviços separa cada um por finalidade.

